Um Ataque Inesperado (parte 3 de 3)

– Ora Aron, pense!

– Mas como pensar num momento desses? Não vê que eu estou sentindo dor? Aliás, ele acaba de apertar ainda mais meu braço, está doendo muito! – o gato novamente com a expressão perversa.

– Aron, não vou lhe entregar a solução assim. E por acaso não foi por isso mesmo que deixei aquelas duas aprontarem esta para cima de você? O gato é um aprendizado, pense nisso.

– Mas qual a lição a se aprender nisso?

* Se você não leu, leia a parte 1 aqui. *

– Ora, a lição é a de que é justamente nos momentos mais difíceis é que precisamos pensar mais! Porque aprendemos e praticamos tudo o que aprendemos e praticamos? Para dar show? É claro que não! Nós só fazemos tudo isso porque queremos estar prontos para enfrentar as dificuldades que nos são apresentadas. Mais importante ainda, para ajudar nosso próximo que não possui o mesmo conhecimento que nós possuímos. Até agora você tem se divertido muito, e olhe que este gato aí nem é lá grande coisa! – falou isso e fez uma careta para o gato que, desta vez, tentou mostrar-se mais ameaçador, devolvendo uma cara feia e raivosa.

– Quero ver se você tem a coragem de não se meter nisso, mago! – transmitiu mentalmente o gato para o Mestre e para o Aprendiz, simultaneamente, por pensamento – este seu moleque não passa de um imbecil pretensioso, preguiçoso e medroso! Ah, ah, ah! Quero ver seu moleque – desta vez voltando-se para Aron – quero ver o que o medrosinho vai fazer! Vai pedir arrego para o Mestrezinho? Você não passa de um moleque! Não sabe de nada e nem nunca vai saber! Eu sou muito mais poderoso que você, você não pode fazer nada contra mim, quero só ver…

– Ora, cale a boca! – interrompeu o Mestre já sem paciência com o falatório – Aron, é com você. Tens minha total confiança, sempre.

– Mestre – Aron tentava reagir à dor e ao medo do monstruoso animal – posso utilizar qualquer recurso disponível aqui? Quero dizer, qualquer coisa que eu possuo, sem receio de estragar ou violar nada?

– Meu filho, coisas são apenas coisas. E coisas nós conseguimos de novo! Compramos, achamos, fazemos de novo! Não se apegue a nada. O que nós temos que conservar sempre é Deus acima de tudo, nosso Mestre Jesus que é nosso mentor e desse mundo, nossos guias e nossas almas, nossas e as almas daqueles que amamos. O resto do que há neste mundo nós usamos, com critério e com respeito, mas usamos!

– Então espera aí! – respondeu o Aprendiz se levantando com dificuldade – Não me ajude!
Aron foi andando pela casa em direção à saída com muita dificuldade. O gato colocara todo o peso possível em seu corpo e já pesava, a essas alturas, mais de quinze quilos. Além disso, apertava seu braço com tudo o que tinha, talvez com o intuito de desanimá-lo. Seu braço doía muito, mas ele estava resolvido a resolver sozinho, como um verdadeiro aspirante a mago deveria fazer.

Chegou ao quintal de sua casa, onde havia plantado algumas ervas. Arruda, guiné, alecrim, comigo-ninguém-pode, espada de São Jorge, manjericão, pimenteira. Tudo o que precisava para preparar banhos e realizar seus trabalhos. Passou a mão num vasto punhado de ervas, e voltou para dentro de casa, com o gato num braço, o maço de ervas na mão do outro braço.

Aproximou-se então de sua mesa, que era reservada para cartomancia, a toalha ainda posta desde o seu último uso. Empurrou a toalha com a mão que segurava as ervas, a as espalhou bem no centro. Concentrou-se então num breve pensamento evocando as energias naturais contidas naquele ramo de ervas que instantaneamente responderam, exalando um perfume extraordinário, resfriando o ar a seu redor.

Sua mesa, Aron muito bem o sabia, era um lugar de trabalho, consagrado à magia, que tinha o poder de acelerar e fortalecer o efeito de tudo o que ele evocava. Sim, o mesmo poderia ser feito em outro lugar, mas deixar de usar sua mesa estando esta ali disponível para este fim seria como desprezar todo o seu poder, tudo o que ele havia feito ali até então. E este era um erro que Aron já havia aprendido a evitar.

Enquanto as ervas começavam a emanar todo o seu poder, o gato já alterava seu comportamento, surpreso como estava com o que acontecia. Aron então levantou seu braço esquerdo num impulso e o jogou para cima da mesa com tudo. O gato, antes de completada a manobra, soltou-se e atirou-se no chão, emitindo um baque forte, os ossos batendo contra o chão duro. Mas logo se posicionou e fez menção de atacar agora as pernas de Aron que, espertamente, havia reservado ainda um punhado de ervas em sua outra mão e levantou-a, num gesto, ameaçando o gato. Já com a mão esquerda, apanhara também um punhado, e agora ameaçava o animal com as duas mãos. O bicho então encolheu-se num canto, e lá ficou rosnando, os olhos vermelhos, irados.

– Bravo! – bradou o Mestre incentivador – eu sabia!

– É, mas ele ainda está ali! Ele não deveria ter ido embora de uma vez?

– Pois é Aprendiz, acho que no momento ele nem consegue ir. Isto porque ele está comprometido com a missão que lhe foi dada e, se recuar sem um motivo definitivo, vai se ver com quem o enviou e que é o seu credor.

– Mas então?

– Então você precisa dar um destino para ele!

– Eu?

– Sim, claro! E não foi para cima de você que ele foi enviado?

– Bem, foi… mas para onde devo mandá-lo?

– Você tem algumas alternativas. A primeira poderia ser, talvez, mandá-lo para cima de algum inimigo!

– Não, mas isso eu não quero fazer!

– E porque não?

– Por que se eu fizer isso eu estaria apenas continuando com o mal que veio até mim. Eu só o estaria transferindo para outro, e eu não tenho e nem que ter inimigos!

– Muito bem Aprendiz! Vejo que você tem a alma nobre e boas intenções! Não foi à toa que eu o escolhi! Daí nós temos outras duas opções: enviá-lo simplesmente para o lugar de onde ele veio ou ainda enviá-lo de volta para cima de quem o mandou.

– Mas enviá-lo de volta para cima de quem o mandou não seria como mandá-lo para cima de um inimigo?

– E por acaso você conhece aquelas duas? Seriam as duas suas inimigas?

– Não!

– Então é bem diferente!

– Diferente como?

– Você não faria isso por raiva nem tampouco por vingança. Você faria isso simplesmente porque é certo. Veja Aron, no universo existe uma lei muito maior do que todos nós que é a lei da causa e do efeito. Se você não enviar o gato para cima delas você estará interferindo nesta lei, impedindo que as duas sofram as conseqüências sobre seus atos. Você não as estaria ajudando, pelo contrário. Se elas não sofrerem por causa desse ato, sabe lá Deus o que ainda podem aprontar e sofrer ainda mais. Vai ser bom elas experimentarem do seu próprio remédio, não?

– Tem razão Mestre, não farei isso com prazer, nem por vingança, nem para ser um justiceiro. Farei isso porque é o mais lógico a se fazer.

Aron olhou então para o gato, levantou as mãos ainda com as ervas e ordenou com voz firme:

– Criatura, eu não lhe desejo mal, nem a si e nem a quem aqui lhe enviou! Não guardo rancor, mas não o quero mais aqui. Vá, faça exatamente o que lhe foi ordenado que fizesse contra mim contra aquelas que lhe enviaram. Vá agora! Saia!
Ao dizer isso o gato, estranhamente, esboçou um sorriso, se virou e sumir na escuridão do canto em que se encolhia.

Parecia sentir prazer em poder fazer aquilo que ele se prestava a fazer.

– Muito bem Aron, parabéns! – prosseguiu o Mestre – Você se saiu bem! Agora, deixe-me ver o braço.

O Mestre fez então uma imposição da mão no local do ferimento que melhorou muito, mas não completamente. Aron ainda sentiria dores no local da mordida por algumas semanas.

– Pronto, tente se recuperar – concluiu o Mestre – amanhã temos outros aprendizados reservados para você.

FIM

Faça seu comentário!

Um pensamento sobre “Um Ataque Inesperado (parte 3 de 3)

Deixe seus Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s